quarta-feira, 27 de abril de 2011

Agenda de sargento que morreu no caso Riocentro traz nomes da atual comunidade de informações. Por Chico Otavio e Alessandra Duarte do Globo

Apesar de sempre ficar com um pé atrás com tudo que é veiculado pelas Organizações Globo, a reportagem abaixo traz a tona informações valiosas para quem se interessa pelo tema ou que desejam a justiça para os crimes cometidos na época. 

Agenda de sargento que morreu no caso Riocentro traz nomes da atual comunidade de informações

Por Chico Otavio e Alessandra Duarte

RIO - A rede de contatos formada pelas anotações do sargento Guilherme Pereira do Rosário em sua agenda de telefones - mostrada em reportagem do GLOBO publicada neste domingo - aponta para o que hoje é a atual comunidade civil de informações. Militares reformados que, após o fim do regime, partiram para empresas particulares de vigilância, segurança, contra-informação, arapongagem. Rosário morreu na explosão da bomba que carregava no colo, na noite de 30 de abril de 1981, no estacionamento do Riocentro.

Como O GLOBO revelou neste domingo, o segundo inquérito aberto sobre o caso, em 1999, apontou a existência da agenda de telefones de Rosário. O GLOBO identificou metade dos 107 nomes anotados na agenda. Entre eles havia integrantes de cinco segmentos: o chamado Grupo Secreto, organização paramilitar de direita que desencadeou atos terroristas para deter a abertura política; nomes da Secretaria estadual de Segurança, incluindo do órgão responsável por investigar justamente os atentados a bomba da época; organizações civis, como empresas de construção e de material elétrico; veículos de comunicação; e militares que formariam depois a atual comunidade civil de informações e arapongagem.

A presença de alguns desses militares entre os contatos de um ativo participante de atividades terroristas de direita como Rosário mostra que, quando veio a distensão, esse grupo preencheu o vazio de poder utilizando, para fins civis, os conhecimentos de inteligência que tinham adquirido. Além disso, a agenda de Rosário traz indicações de que, já na época do fim do regime, essa comunidade de informações já começava a se articular.

Na lista, nomes do grampo do BNDES

Sargento paraquedista com 12 anos de experiência na guerra suja, Guilherme do Rosário pertencia, quando morreu, à Subseção de Operações Especiais, unidade de elite do DOI I, especializada em estouro de "aparelhos subversivos com o uso de força". Porém, à medida que as missões foram encolhendo - em decorrência do aniquilamento das organizações de esquerda da luta armada e da nova orientação do governo para os DOIs, que foram reestruturados para seguir uma linha mais de inteligência que de força -, o sargento passou a empregar a sua experiência nas operações clandestinas. Um dos seus principais contatos, na articulação com outros órgãos da repressão, era o coronel Freddie Perdigão Pereira, ex-DOI e na época agente, no Rio, do Serviço Nacional de Informações (SNI) - o grande órgão de inteligência do regime militar.

Frequentador do destacamento da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Perdigão tinha encontros periódicos com os agentes de operações especiais no bar Garota da Tijuca, a poucos metros da unidade, que ficou conhecida como o principal centro de torturas do Rio.

Da comunidade de informações, a caderneta de telefones de Guilherme do Rosário trazia, por exemplo, o nome de Wilson Pinna, agente da Polícia Federal aposentado. Entre 1979 e 1985, Pinna trabalhava no Dops, na coleta e análise de informações. Era um dos que, por exemplo, iam a assembleias, protestos, comícios e outras reuniões para ver quem dizia o quê. Pinna chegou a, por exemplo, coordenar a análise de informações do movimento operário da época.

Aposentado da PF em 2003, Wilson Pinna foi exonerado, em 2009, de cargo comissionado que ocupava na assessoria de inteligência da Agência Nacional de Petróleo (ANP), após ter sido acusado pela Polícia Federal como o autor do falso dossiê contra o então diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do então ministro da Comunicação Social, Franklin Martins. Pinna foi denunciado na 2ª Vara Federal Criminal do Rio pelos crimes de interceptação telefônica ilegal e quebra de sigilo fiscal.

Wilson Pinna disse não se lembrar de ter conhecido Guilherme do Rosário, mas, segundo ele, podem ter se encontrado em algum dos cursos da área de inteligência feitos pelo agente federal, como aulas no DOI, no CIE e no Cenimar.

Na lista de contatos de Rosário, havia ainda um "Araujo" - cujo telefone pertencia, na época, a Marcelo Augusto de Moura Romeiro da Roza, já falecido. Trata-se de um coronel do Exército reformado fundador da Network Inteligência Corporativa, empresa do ramo de segurança e espionagem. Nos anos 90, Romeiro da Roza chegou a ter o nome envolvido no episódio do grampo do BNDES, em que foram registradas conversas sobre a privatização do sistema Telebrás do então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e do presidente do banco, André Lara Resende.

Marcelo Romeiro da Roza foi sócio na Network com outro nome anotado por Rosário em sua caderneta: o coronel reformado do Exército Otelo José da Costa Ortiga. Na agenda do sargento, Ortiga é acompanhado pela anotação "(Luiz)". Pois o coronel Ortiga teria sido conhecido justamente pelo codinome Luiz em órgãos de inteligência como o CIE. Além da Network, o coronel Ortiga também foi sócio de outras empresas de inteligência, como a DFC e a Ciclone Proteção e Segurança.

Mas essa comunidade de informações vinda do meio militar-policial - e que hoje atua sob nomes diversos que vão de "serviços de vigilância" a "assessoria e consultoria em segurança" - já tinha seu embrião na época da distensão. A agenda de Rosário continha anotações que indicavam isso. Ao lado, por exemplo, do nome de José Paulo Boneschi - inspetor da Polícia Civil que chefiou o início do Grupo de Operações Especiais (Goesp) da Secretaria estadual de Segurança, e que consta como um dos principais torturadores da repressão -, havia a anotação "firma" e um telefone.

O número da "firma" era o da empresa de segurança Agents, na qual Boneschi trabalhou, pelo menos, até 1982. O dono da Agents, o comandante Francisco Gama Lima foi acusado de chefiar uma equipe de grampeadores de telefones para a qual trabalhava o técnico da Telerj Heráclito de Sousa Faffe, morto por uma injeção de veneno similar à que teriam aplicado no jornalista Alexandre von Baumgarten.

Gama Lima, que foi do Cenimar entre 1963 e 1967, chegou ainda a ser acusado de envolvimento na morte de Baumgarten. O coronel da reserva da PM Paulo César Amêndola, outro a constar na agenda de Guilherme do Rosário, também chegou a trabalhar na Agents.

A caderneta de Rosário traz ainda telefones do próprio SNI, de contatos do DOI do Rio e também do DOI de Belo Horizonte, e um contato que fez na Escola Nacional de Informações (EsNI) no ano mesmo em que morreria: o do então sargento da Aeronáutica José Pinheiro de Azevedo, que foi da turma de Guilherme do Rosário num curso sobre análise de informações feito em 81, meses antes do atentado no Riocentro.

A rede do sargento era formada, ainda, por outros sargentos paraquedistas, como Flávio Ribas e Laert de Azevedo, este tendo se formado na Brigada Paraquedista na mesma turma de Rosário.

Com a chegada da abertura política, os sargentos paraquedistas passaram a ser arregimentados como braços operacionais de integrantes da linha dura insatisfeitos com o ritmo da distensão. Um desses sargentos a constar da caderneta de Rosário era Magno Cantarino Motta, o "agente Guarani". Motta servia com Rosário na Subseção de Operações Especiais do DOI-I, e, no dia do atentado no Riocentro, ficou responsável por fazer a cobertura fotográfica do evento, de um posto de gasolina.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/04/24/agenda-de-sargento-que-morreu-no-caso-riocentro-traz-nomes-da-atual-comunidade-de-informacoes-924307530.asp#ixzz1KarZcqaU 

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domingo, 17 de abril de 2011

Sebastião Curió, líder da repressão à Guerrilha do Araguaia foi solto em menos de 24 horas em Brasília

O oficial de reserva Sebastião Curió Rodrigues de Moura, um dos chefes da repressão à Guerrilha do Araguaia, foi preso no dia 31/03/2011 em sua casa em Brasília durante uma operação de busca e apreensão a documentos da ditadura.

Os agentes federais buscavam documentos que pudessem ajudar na localização de corpos das vítimas da guerrilha. Segundo a Superintendência da Polícia Federal (PF) do Distrito Federal, o major Curió guardava em casa armas sem o devido registro de porte, o que resultou na prisão.

A PF não informou quantas armas e quais os modelos do armamento encontrado sem registro. Depois de prestar depoimento à Justiça Federal e aos policiais federais, Curió foi levado para o Batalhão de Polícia do Exército, uma vez que é militar, onde está preso.

Os agentes federais e o procurador da República Paulo Roberto Galvão foram até a casa de Curió para tentar resgatar documentos do período da ditadura (1964-1985), em especial de sua atuação durante a Guerrilha do Araguaia, nos anos 70.

Nos últimos anos, Curió afirmou em entrevistas que possuía farto material com detalhes das mortes dos guerrilheiros. Em sua casa, foram apreendidos papéis, um computador e as armas.

O Ministério Público Federal (MPF) vai submeter o computador a análise em busca de documentos que possam estar digitalizados. Entre os papéis encontrados pelo MPF, estão páginas de documentos antigos com o selo "confidencial". No entanto, a instituição não confirmou se o material pode ajudar na localização dos corpos dos guerrilheiros enterrados no Araguaia (TO).

A busca por documentos é uma resposta a uma ação movida na 1 Vara Federal por 22 familiares de 25 vítimas da repressão à Guerrilha do Araguaia. Os familiares querem saber o destino dado a esses guerrilheiros, localizar os corpos e realizar seus funerais.

Curió foi o principal nome dos militares na repressão à guerrilha movida pelo PCdoB e por camponeses da região do Araguaia. O governo federal já fez buscas em Tocantins, orientadas pelo Exército. Na região, impera a lei do silêncio entre pessoas que viveram o período e o MPF no Pará registra diversas denúncias de supostas ameaças de Curió para que as testemunhas não apontem os locais ondem possam estar essas ossadas.

— Era o que precisava ser feito desde a sentença da Justiça Federal, em 2007: essa busca aos documentos. E espero que sejam feitas outras mais — disse Crimeia de Almeida, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Segundo Crimeia, a busca na casa de Curió é resultado de uma ação movida por 22 familiares de 25 desaparecidos, entre eles o marido de Crimeia, André Grabois, um dos líderes da guerrilha.

Contudo sua prisão não durou muito. Curió foi solto na madrugada de quarta-feira, após ter conseguido um habeas corpus.

O processo tramita agora na 8ª vara criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. 


Curió gravou depoimento para a novela do SBT "Amor e Revolução" no qual defendeu o golpe militar como sendo um atendimento do exército ao clamor popular e que SE foram cometidos excessos estes foram muito poucos. 





Fonte: O Globo



sábado, 9 de abril de 2011

Para não Esquecermos. Ditabranda é o C.... !

Allan Mahet 


Dia 31 de Março para Primeiro e Abril de 1964, começava ali umas das mais sombrias páginas de nossa história.

Quarenta e sete anos depois, vinte e seis do último governo militar e até hoje não conseguimos nos acertar com nosso passado. 



Vemos argentinos e chilenos fazendo justiça e punindo torturadores e militares de altas patentes que comandaram mais de 20 anos de banho de sangue na América Latina, mas nós ficamos devendo. Parece que nada aconteceu ou pior, que as contas já foram acertadas quando na promulgação da Anistia. Vergonhoso. Assim como vergonhoso são os discursos pró-milicos que flutuam ao nosso redor vindos tanto de contemporâneos do golpe (que alguns chamam de Revolução  Democrática) quanto de jovens que assim como eu nasceram ao apagar das luzes do Regime. E isto me assusta e muito. 


Não sei se trata de desconhecimento da história ou uma falsa ideia da incorruptibilidade militar ou de uma suposta segurança maior nos anos de chumbo - este último muito presente em discurso dos mais velhos. "Não tinha vagabundo nas ruas, não tinha traficante, bala perdida..." bradam os defensores do retorno ao militarismo. Mas para derrubar tais argumentos me vem a cabeça trecho de uma música do Rappa: "Paz sem voz não é paz, é medo!". 


Me assusta também, porém me surpreende menos é a mudança da postura de instituições que apoiaram e festejaram o golpe e que hoje posam de democratas (não o partido DEMo) e repudiam os acontecimentos da época. Ver a Globo, o Estadão (não mudou tanto assim), JB (comandado por Boris Casoy na época), dentre outros levantando a bandeira da legalidade é mais uma vez, vergonhoso. E aqui não se trata de revisar posturas como reconhecimento de erros passados e evolução moral e intelectual. Se trata de desfaçatez. De tirar proveito de uma memória bem escassa de nós brasileiros. De querer posar de justo quando na verdade caminharam ao lado de governos de vermes sádicos e ditatoriais.


Por isso é preciso romper o silêncio do bom convívio. Retirar o véu que cobre as crueldades. Punir os algozes que ainda caminham livres sobre o mesmo chão de suas vítimas. Responsabilizar os comandantes desse trágico painel pintado com sangue de lutadores, corajosos militantes que sob a chuva de papel picado da burguesia e dos cacetetes do exército lutou contra a barbárie, a injustiça e o entreguismo. 


Se um dia quisermos ser um país com justiça social não podemos permitir que mais ano se passe sem que nada seja feito. Que criminosos não paguem pelos seus crimes. Miremos em nossos hermanos pelos quais, inexplicavelmente, nutrimos ódio mortal. Não sejamos covardes, injustos e amorais. 



Não podemos permitir que esse triste capítulo seja chamado do Ditabranda, porque simplesmente nada de branda teve. 


Para ilustrar a gravidade de querer empalidecer o Regime destaco alguns textos e um trecho da novela "Amor e Revolução" do SBT, que apesar de grandes problemas técnicos e de roteiro, tenta recordar à nossas mentes que existiu um tempo em que andar com um livro vermelho, com a barba grande, cursar humanas ou se coçar diferente já era passível de ser chamado de subversivo, ser trancado em uma sala escura e sobre violências absurdas. 


O forte depoimento abaixo é de Jarbas Marques, militante torturado no DOPS. 


Seguem textos interessantes.

O que a falácia da ditabranda revela

por Marco Aurélio Weissheimer

Em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de S. Paulo utilizou a expressão “ditabranda” para se referir à ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Na opinião do jornal, que apoiou o golpe militar de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart, a ditadura brasileira teria sido “mais branda” e “menos violenta” que outros regimes similares na América Latina.

Como já se sabe, a Folha não foi original na escolha do termo. Em setembro de 1983, o general Augusto Pinochet, em resposta às críticas dirigidas à ditadura militar chilena, afirmou: “Esta nunca foi uma ditadura, senhores, é uma dictablanda”. Mas o tema central aqui não diz respeito à originalidade. O uso do termo pelo jornal envolve uma falácia nada inocente. Uma falácia que revela muita coisa sobre as causas e consequências do golpe militar de 1964 e sobre o momento vivido pela América Latina.

É importante lembrar em que contexto o termo foi utilizado pela Folha. Intitulado “Limites a Chávez”, o editorial criticava o que considerava ser um “endurecimento do governo de Hugo Chávez na Venezuela”. A escolha da ditadura brasileira para fazer a comparação com o governo de Chávez revela, por um lado, a escassa inteligência do editorialista. Para o ponto que ele queria sustentar, tal comparação não era necessária e muito menos adequada. Tanto é que pouca gente lembra que o editorial era dirigido contra Chávez, mas todo mundo lembra da “ditabranda”.

A falta de inteligência, neste caso, parece andar de mãos dadas com uma falsa consciência culpada que tenta esconder e/ou justificar pecados do passado. Para a Folha, a ditadura brasileira foi uma “ditabranda” porque teria preservado “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”, o que não estaria ocorrendo na Venezuela. Mas essa falta de inteligência talvez seja apenas uma cortina de fumaça.

O editorial não menciona quais seriam as “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça” da ditadura militar brasileira, mas considera-as mais democráticas que o governo Chávez que, em uma década, realizou 15 eleições no país, incluindo aí um referendo revogatório que poderia ter custado o mandato ao presidente venezuelano. Ao fazer essa comparação e a escolha pela ditadura brasileira, a Folha está apenas atualizando as razões pelas quais apoiou, junto com a imensa maioria da imprensa brasileira, o golpe militar contra o governo constitucional de João Goulart.

Está dizendo, entre outras coisas, que, caso um determinado governo implementar um certo tipo de políticas, justifica-se interromper a democracia e adotar “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”. A escolha do termo “ditabranda”, portanto, não é acidental e tampouco um descuido. Trata-se de uma profissão de fé ideológica.

Há uma cortina de véus que tentam esconder o caráter intencional dessa escolha. Um desses véus apresenta-se sob a forma de uma falácia, a que afirma que a nossa ditadura não teria sido tão violenta quanto outras na América Latina. O núcleo duro dessa falácia consiste em dissociar a ditadura brasileira das ditaduras em outros países do continente e do contexto histórico da época, como se elas não mantivessem relação entre si, como se não integrassem um mesmo golpe desferido contra a democracia em toda a região.

O golpe militar de 1964 e a ditadura militar brasileira alimentaram política e materialmente uma série de outras ditaduras na América Latina. As democracias chilena e uruguaia caíram em 1973. A argentina em 1976. Os golpes foram se sucedendo na região, com o apoio político e logístico dos EUA e do Brasil. Documentos sobre a Operação Condor fornecem vastas evidências dessa relação.

Recordando. A Operação Condor é o nome dado à ação coordenada dos serviços de inteligência das ditaduras militares na América do Sul, iniciada em 1975, com o objetivo de prender, torturar e matar militantes de esquerda no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia.

O pretexto era o argumento clássico da Guerra Fria: "deter o avanço do comunismo internacional". Auxiliados técnica, política e financeiramente por oficiais do Exército dos Estados Unidos, os militares sul-americanos passaram a agir de forma integrada, trocando informações sobre opositores considerados perigosos e executando ações de prisão e/ou extermínio. A operação deixou cerca de 30 mil mortos e desaparecidos na Argentina, entre 3 mil e 7 mil no Chile e mais de 200 no Uruguai, além de outros milhares de prisioneiros e torturados em todo o continente.

Na contabilidade macabra de mortos e desaparecidos, o Brasil registrou um número menor de vítimas durante a ditadura militar, comparado com o que aconteceu nos outros países da região. No entanto, documento secretos divulgados recentemente no Paraguai e nos EUA mostraram que os militares brasileiros tiveram participação ativa na organização da repressão em outros países, como, por exemplo, na montagem do serviço secreto chileno, a Dina. Esses documentos mostram que oficiais do hoje extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) ministraram cursos de técnicas de interrogatório e tortura para militares chilenos.

Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo (30/12/2007), o general Agnaldo Del Nero Augusto admitiu que o Exército brasileiro prendeu militantes montoneros e de outras organizações de esquerda latino-americanas e os entregou aos militares argentinos. “A gente não matava. Prendia e entregava. Não há crime nisso”, justificou na época o general. Humildade dele. Além de prender e entregar, os militares brasileiros também torturavam e treinavam oficiais de outros países a torturar. Em um dos documentos divulgados no Paraguai, um militar brasileiro diz a Pinochet para enviar pessoas para se formarem em repressão no Brasil, em um centro de tortura localizado em Manaus.

Durante a ditadura, o Brasil sustentou política e materialmente governos que torturaram e assassinaram milhares de pessoas. Esconder essa conexão é fundamental para a Folha afirmar a suposta existência de uma “ditabranda” no Brasil. A ditadura brasileira não teve nada de branda. Ao contrário, ela foi um elemento articulador, política e logisticamente, de outros regimes autoritários alinhados com os EUA durante a guerra fria. O editorial da Folha faz eco às palavras do general Del Nero: “a gente só apoiava e financiava a ditadura; não há crime nisso”.

Não é coincidência, pois, que o mesmo jornal faça oposição ferrenha aos governos latino-americanos que, a partir do início dos anos 2000, levaram o continente para outros rumos. Governos eleitos no Brasil, na Venezuela, na Bolívia, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai passam a ser alvos de uma sistemática oposição midiática que, muitas vezes, substitui a própria oposição partidária.

A Folha acha a ditadura branda porque, no fundo, subordina a continuidade e o avanço da democracia a seus interesses particulares e a uma agenda ideológica particular, a saber, a da sacralização do lucro e do mercado privado. Uma grande parcela do empresariado brasileiro achou o mesmo em 64 e apoiou o golpe. Querer diminuir ou relativizar a crueldade e o caráter criminoso do que aconteceu no Brasil naquele período tem um duplo objetivo: esconder e mascarar a responsabilidade pelas escolhas feitas, e lembrar que a lógica que embalou o golpe segue viva na sociedade, com um discurso remodelado, mas pronto entrar em ação, caso a democracia torne-se demasiadamente democrática.



A mídia e o golpe militar de 64

Altamiro Borges
 
Amanhã, 1º de abril, marca os 47 anos do fatídico golpe civil-militar de 1964. Na época, o imperialismo estadunidense, os latifundiários e parte da burguesia nativa derrubaram o governo democraticamente eleito de João Goulart. Naquela época, a imprensa teve papel destacado nos preparativos do golpe. Na sequência, muitos jornalões continuaram apoiando a ditadura, as suas torturas e assassinatos. Outros engoliram o seu próprio veneno, sofrendo censura e perseguições.

Nesta triste data da história brasileira, vale à pena recordar os editoriais dos jornais burgueses – que clamaram pelo golpe, aplaudiram a instalação da ditadura militar e elogiaram a sua violência contra os democratas. No passado, os militares foram acionados para defender os saqueadores da nação. Hoje, esse papel é desempenhado pela mídia privada, que continua orquestrando golpes contra a democracia. Daí a importância de relembrar sempre os seus editorais da época:

O golpismo do jornal O Globo

“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos. Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”. O Globo, 2 de abril de 1964.

“Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada..., atendendo aos anseios nacionais de paz, tranqüilidade e progresso... As Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a nação na integridade de seus direitos, livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal". O Globo, 2 de abril de 1964.

“Ressurge a democracia! Vive a nação dias gloriosos... Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ter a garantia da subversão, a ancora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada”. O Globo, 4 de abril de 1964.

“A revolução democrática antecedeu em um mês a revolução comunista”. O Globo, 5 de abril de 1964.

Conluio dos jornais golpistas

“Minas desta vez está conosco... Dentro de poucas horas, essas forças não serão mais do que uma parcela mínima da incontável legião de brasileiros que anseiam por demonstrar definitivamente ao caudilho que a nação jamais se vergará às suas imposições”. O Estado de S.Paulo, 1º de abril de 1964.

“Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu”. Tribuna da Imprensa, 2 de abril de 1964.

“Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade... Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”. Jornal do Brasil, 1º de abril de 1964.

“Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada”. Jornal do Brasil, 1º de abril de 1964.

“Pontes de Miranda diz que Forças Armadas violaram a Constituição para poder salvá-la”. Jornal do Brasil, 6 de abril de 1964.

“Multidões em júbilo na Praça da Liberdade. Ovacionados o governador do estado e chefes militares. O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade”. O Estado de Minas, 2 de abril de 1964.

“A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento”. O Dia, 2 de abril de 1964.

“A paz alcançada. A vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil”. O Povo, 3 de abril de 1964.

“Milhares de pessoas compareceram, ontem, às solenidades que marcaram a posse do marechal Humberto Castelo Branco na Presidência da República... O ato de posse do presidente Castelo Branco revestiu-se do mais alto sentido democrático, tal o apoio que obteve”. Correio Braziliense, 16 de abril de 1964.

Apoio à ditadura sanguinária

“Um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama”. Folha de S.Paulo, 22 de setembro de 1971.

“Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer e afirmar-se. Negue-se tudo a essa revolução brasileira, menos que ela não moveu o país, com o apoio de todas as classes representativas, numa direção que já a destaca entre as nações com parcela maior de responsabilidades”.Jornal do Brasil, 31 de março de 1973.

“Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. Editorial de Roberto Marinho, O Globo, 7 de outubro de 1984.

Fonte: Blog do Miro


http://www.viomundo.com.br/politica/gilson-caroni-1964-nao-podemos-dormir-novamente.html


http://www.viomundo.com.br/politica/ex-agentes-da-operacao-condor-condenados-na-argentina.html


http://www.viomundo.com.br/politica/emir-sader-as-razoes-do-golpe-de-64.html


http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/curio-major-da-repressao-a-guerrilha-do-araguaia-e-preso-em-brasilia.html


http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=151302&id_secao=1


sábado, 2 de abril de 2011

A Covardia Fardada. Nossa Polícia tem Solução?


Nas últimas semanas fomos brindados com ações exemplares de nossa polícia.

Em seis vídeos podemos ver o quão estamos mal amparados no que diz respeito à proteção, segurança e justiça.

São seis situações em que a ação dos que deveriam nos proteger, afinal são pagos para tal*, se confundem com a daqueles que são,em teoria, a razão da necessidade de segurança.  

*Obs: Argumentos de que são mal remunerados servem para justificar seus delitos assim como se utiliza o da pobreza para a criminalidade. Em ambos os casos os argumentos são explicativos e não propriamente justificativos.

O primeiro caso e mais recente foi à intervenção policial em uma manifestação dos moradores do morro do Bumba em Niterói que praticamente deixou de existir após as fortes chuvas de 2010. A Prefeitura de Niterói, já em dívida nos últimos três meses em relação ao aluguel social (benefício recebido pelos moradores de cerca de RS 500) informou aos desabrigados do Bumba que mais uma vez não faria o pagamento. Isto ocorreu já na fila do suposto pagamento. A clara e justa revolta dos cidadãos tomou a rua próxima, fechando o trânsito. Para dispersar a multidão, policiais se utilizaram de gás de pimenta. Ferramenta que deve ser utilizada jogando o jato no ar a fim de tornar o ambiente insalubre, mas nunca diretamente sobre alguém se o mesmo não se apresenta como uma ameaça. Pois bem, as imagens abaixo são claras. Em um dado momento, quando a situação parecia mais calma, um dos policiais aplica um jato de gás de pimenta dentro dos olhos de um rapaz que é escolhido dentre várias pessoas. Covardia maior pode ser vista na foto que foi capa do O Globo e que foi amplamente reduzida no Facebook, nela outro policial borrifa o gás em cima de crianças. Um absurdo sem tamanho que tem de ser apurado e julgado conforme sua gravidade.  Até o momento, pelas informações colhidas, apenas o primeiro policial foi advertido. Instituições de proteção aos diretos humanos e das crianças ainda não se posicionaram sobre o assunto.






Foto: Pedro Kirilos

Outra situação aterradora aconteceu na verdade há dois anos, mas somente a pouco veio à tona. Em uma delegacia do Estado de São Paulo uma escrivã acusada de ter recebido propina de R$ 200,00 para liberar um acusado do inquérito, foi despida a força por agentes homens da Corregedoria da Polícia (Corregedoria é o órgão que apura desvios de policiais e que zelaria pela boa conduta destes). Se usando de um amparo legal a acusada, que em nenhum momento da gravação se opôs à revista, solicitou que a mesma fosse realizada por agentes femininas. De nada adiantaram os apelos da vítima que diante de pelo menos cinco homens foi algemada e teve a calça e calcinha arrancadas pelos corregedores. No vídeo podem ser vistas pelo menos duas policias mulheres, mas a insistência dos agentes era para que a revista fosse realizada por algum corregedor. A brutalidade e ignorância do ato colocam em segundo plano o crime da escrivã (ex-escrivã, pois mesmo sem ter sido julgada já foi expulsa da corporação). Interessante é que segundo a reportagem da Band a ação aconteceu, como dito, há dois anos e o vídeo foi mantido sob sigilo por todo esse tempo com a conivência de diversas autoridades. Questionada sobre a ação a Secretaria de Segurança afirmou que a abordagem foi correta e o uso de força foi moderado. O governador Alckmin ao ser questionado sobre a conduta dos agentes disse que grave foi o vazamento do vídeo (g1.com). Realmente exemplar a moderação.

ATENÇÃO: CENAS DE NUDEZ 




Outra situação foram as prisões ocorridas em uma manifestação contra a vinda de Barak Obama ao Brasil. Em uma anomalia jurídica prenderam 13 pessoas dentre todo grupo de cerca de 600 manifestantes sem qualquer critério ou prova. Para piorar, os homens foram levados para o presídio (antes de qualquer julgamento) em Água Santa e tiveram a cabeça raspada. As mulheres foram encaminhadas para Bangu 8, inclusive uma senhora de 69 anos. A justificativa para mantê-los trancafiados foi a de que tentaram colocar fogo no prédio com um coquetel molotov, que até agora não identificaram de quem era, e de que colocavam em risco a vida de presidente americano. Com o esquema de segurança montado nem o Noturno (personagem dos X-Men que já fez um atentado contra o presidente no filme) ameaçaria a vida do presidente, quanto mais 13 pessoas que empunhavam cartazes e faixas. Só se o Obama for alérgico a celulose, algodão e tinta.




Também data de 2009 caso que ocorreu em Manaus onde policias atiram em um jovem desarmado e acuado junto ao muro da própria casa. O jovem só sobreviveu graças à, felizmente, incompetência técnica dos servidores.


Os outros dois casos trataram-se da intervenção policial às manifestações estudantis. Em São Paulo como não haveria de ser diferente, desde os tempos de Serra, desceu o cassetete em estudantes que protestavam contra o aumento das passagens. Mais uma vez, o estado em defesa do capital combateu àqueles que tentam clamar por seus direitos e não se curvam diante da injustiça e da canalhice.


No Rio estudantes do (meu) Pedro II. entraram em choque com policiais quando estes não permitiram a manifestação que reivindicava ar condicionado nas salas de aula. No verão carioca, mesmo com os ventiladores a temperatura chega facilmente aos 35 graus nas salas, dificultando o ensino e aprendizado. A PM não pensou duas vezes, desceu a pancada nos secundaristas.





Foto: Bruno Gonzalez


Seis pouco belos exemplos de como estamos mal servidos de agentes que são os responsáveis pela nossa segurança, que deveriam prezar pela defesa de nossos interesses e integridade física e moral. Também são exemplos de instituição próxima da falência moral por completo.

Não consigo vislumbrar alternativas, soluções ou saídas para a nossa polícia. São tantos e diversos os problemas que nem sei por onde começar. Quero pensar que existem pessoas lá dentro que realmente pensam em fazer a diferença. Que entram com a vontade e a esperança de proteger todos os cidadãos de bem (e não apenas os de bens) mas estes se deparam com uma estrutura falida econômica e moralmente.

Recorro aos leitores internautas alguma idéia, alguma proposta que possa transformar essa instituição em uma ferramenta em defesa da população e não em seu algoz.