quinta-feira, 24 de março de 2016

Pensando fora da Polarização

Diante do caótico cenário atual são poucas as análises racionais interessantes que aparecem. E mesmo estas acabam atropeladas por novos acontecimentos. A incapacidade de produzir uma reflexão além de frustrante é perigoso, pois abre espaço para o discurso raso e marcado apenas pela raiva, ignorância, preconceito e revanchismo. O medo maior é que já nem sequer haja espaço para tais análises aprofundadas e contrariar a tendência polarizadora, que nos 'obriga' a levantar uma das duas bandeiras hoje  expostas, problematizando ao invez de aceitar o discurso simplista, apesar de nos colocar como alvo de ambos os lados é um bom exercício que principia o debate crítico que está em falta. É isto o que proponho. 

Do mesmo modo que é completamente impossível, de forma sensata, a defesa do governo petista, seja pela ótica do seu distanciamento de um projeto progressista e popular e aproximação ao grande capital, seja pelos atos de sua alta cúpula e seus indicados, levantados nos processo do Mensalão e na operação Lava à Jato, não é possível, a partir de uma mínima consciência crítica, a aderência cega aos movimentos que ocupam as ruas que travestido de combate à corrupção,  exigem a saída do PT do Governo.

Nesse grande imbróglio não nos é permitido sermos ingênuos tão pouco omissos. 

De fato a corrupção não nasceu e não acontece apenas no governo do PT. Atravessou todos os nossos regimes de governo. Enriqueceu muitos durante os governos militares, aprovou emendas, dentre elas a da reeleição de FHC, e contribui para a avalanche de privatizações em sua tenebrosa e entreguista presidência e abarrotou o cofre de partidos e de pessoas ligadas ao atual governo. Contudo não pode ser esta a justificativa para que não se passe os crimes à limpo. A criticidade deve se pautar em analisar as razões e interesses para que os casos passados não tenham sido levados à justiça e não oferecermos salvo conduto sobre os crimes atuais. 

É inegável a contribuição histórica que a operação Lava à Jato está proporcionando ao estado brasileiro, com suas punições à grandes empresários, políticos e resgate de valores roubados da Petrobras. Assim como também é inegável certa seletividade tanto nos indiciamentos quanto aos vazamentos de informações, o que coloca o judiciário em suspeição quanto a sua isonomia, além de condutas classificadas ao menos como questionáveis, por diversos juristas. Contudo, devemos pensar que se os crimes não tivessem sido cometidos poderiam ocorrer toda ou qualquer investigação ou grampo, legal ou ilegal, vazado inadvertidamente ou não, que a lisura dos envolvidos não seria questionada. Não podemos nos opor à uma justiça que tende a mudar o histórico e correto chavão de que rico não é preso. Mas é necessário atenção às ações que desrespeitam a constituição, os direitos ou estejam imbuídas de partidarismo e megalomania. Elas devem ser punidas assim como os seus alvos quando comprovados seus crimes. Ambos são graves, ambos devem ter consequências. 

Deixando de lado qualquer dubiedade, o papel da grande mídia com inquestionável parcialidade, manipulando, pré julgando e inflamando reações raivosas e polarizadas da população, tem sido pertinente para não dizer essencial no clima que tomou conta do país. Mas é imperioso ressaltar que  independente do, não surpreendente, 'trabalho' da imprensa, o ataque que o governo está sofrendo é fruto de suas próprias ações, quando achou que poderia lançar mãos das velhas práticas da política brasileira para se perpetuar no poder e que arregando ao grande capital pensou que por ele não seria descartado. O governo colhe o que plantava à muito tempo e a mídia, comandada por Globo, Folha, Estadão e Veja agradece por terem lhes dado o motivo que faltava para exercer sua vocação golpista, maniqueísta, desregrada e criminosa. 

Sim, existe todo um cenário construído pela oposição sedenta pelo poder que não ocupa há 13 anos, por organizações de direita como o MBL e o Vem Pra Rua, pelo empresariado liderado pela FIESP cujos cortes, ajustes fiscais e deterioração dos direitos dos trabalhadores não aplaca sua sanha contra a CLT, com o combustível midiático que pôde enfim mostrar sua vocação em larga escala e que por fim se apoia em certo desequilíbrio de nosso judiciário que no mesmo compasso em que desfralda a grande malha da corrupção institucional parece trabalhar com tendências políticas. Porém não podemos perder de vista que o embrião disso tudo está nas ações do governo quando decidiu chafurdar na mesma lama pela qual passaram Sarney, Collor, FHC, e uma série de nomes que pilharam o povo. 

Se está clara a impossibilidade de juntar-se às fileiras em apoio a um governo que brada a defesa da democracia, mas que aprova leis que criminalizam as manifestações, que vangloria-se da promoção social realizada mas promove ajustes que punem os trabalhadores, que dizia apoiar a reforma agrária mas coloca uma latifundiária para comandar a pasta responsável e que sempre cobrou ética e se corrompeu de forma titânica, tão clara é a ojeriza em se tornar massa de manobra de uma oposição desejosa de uma vendeta, que deu coragem ao discurso fascista de se relevar sem véus, que proporcionou mais um campo para a burguesia desfilar seus preconceitos, que eleva ao altar dos heróis paladinos figuras incipientes e que trazem a vida as viúvas do militarismo. Tenho certeza que ótimas  pessoas procuram este lado em um desesperado ato de clemência por mudanças, mas enquanto estes insistirem em flertar com pautas burguesas, reacionárias e preconceituosas não me sensibilizarão.